Ressaca

Por Dr. André “Pelé” Tartarini

ressaca1Aí você foi cheio de disposição e pediu mais uma. Depois, outra. Um shotzinho de tequila para rebater. Mais uma cerveja. Uma provinha de cachaça. Então, brilhante idéia: um shotzinho de tequila para relaxar. O garçom passando com uísque na bandeja e, poxa, a vida é curta. Nesse ponto, aliás, você nem consegue estabelecer sinapses a ponto de fazer ponderações do tipo “a vida é curta”. Sua ponderação está mais para “ahhhhh, uísque liberado!” No dia seguinte, aquela pulsação mortal na cabeça e a certeza: nunca mais tomo um porre na vida.
Ahã. Tá certo. Acredito.
Mas vamos sem choque. Tentando entender o paciente, tentando entrar na onda dele, para rolar uma empatia legal.

EU BEBO SIM Eliseth Cardoso

Digam o que quiserem, mas o fato é que encher a cara é muito bom. Se não fosse, ninguém enchia. Vai. Enche a cara.

TEQUILA SUNRISE Cypress Hill

Os rapeiros americanos celebram geralmente outra via de alteração da consciência. Aqui, o drink de tequila com suco de laranja é o mote para fazer com que você se sinta um cara muito macho porque bebe tequila, ou seja lá que drink mexicano você engula. Afinal, a vida existe para ser bebida. “Pa la salud!”

ONE BOURBON, ONE SCOTCH, ONE BEER John Lee Hooker

Não precisa dizer nada. O saudoso John sugere o cardápio. Vai! Enche a cara!

SOMEBODY PUT SOMETHING IN MY DRINK Ramones

Você entra em casa sozinho, derrotado, a cabeça já embaralhando, anunciando a ressaca do dia seguinte. Culpa? Bêbado não sente culpa. Alguém deve ter posto algo em uma das 10 cachaças que você bebeu, ou diluído um negócio qualquer na garrafa de uísque que você e o seu brother enxugaram. É por isso que você está se sentindo estranho. Tudo bem. A primeira reação é negar.

REVERENCE The Jesus and Mary Chain

O refrão é macabro, mas é o que melhor representa a sua sensação ao acordar em meio a uma ressaca monstra: “I wanna die! I wanna die!” E não há como vencer o luto sem passar por ele. Atravessar o lodo é a melhor maneira de superá-lo. Não negue o sentimento: experimente-o para poder vencê-lo. Mas não se mate, por favor. Fique só na vontade.

MORNING LIGHT Ida Maria

Pouca gente conhece essa norueguesazinha ótima. Pena. Um dos petardos dela diz que algumas coisas que rolam tranquilas à noite se revelam grandes roubadas na manhã seguinte. Reconheça: a culpa é sua. Mas nada está perdido. Deixa a luz da manhã entrar. Abre a janela, pelo menos.

BUENOS DÍAS Los Pericos

Um reggaezinho meio pop, uns metais paralâmicos e, de repente, uma quebrada lisérgica, pink-flóidica. Então, novamente os metais paralâmicos, marcando o ritmo. Isso tudo só para te dar bom dia, e dizer que se volta a nascer quando amanhece, e que a claridade é simplesmente necessária. Buenos días, porque o dia tem que ser bom.

WASSERMUSIK suíte número 1 em ré maior Georg Friedrich Händel

Não basta um copo de água gelada. Não basta um banho de água gelada. Deixa a água entrar pelos poros, pelos ouvidos, pela alma. Altos e baixos, mas conduzindo o ouvinte à vitória definitiva. Terapia pura. Não há como ouvir esse trecho do gênio alemão e continuar se sentindo derrotado. Melhor que glicose na veia.

VOLTA POR CIMA Noite Ilustrada & Marcia Freire

O trecho lapidar contido nessa letra do genial Paulo Vanzolini – grande amigo dos copos – devia estar escrito na nossa bandeira. Tirem o positivismo pedante do “Ordem e Progresso” e escrevam:  “Um homem de moral não fica no chão, nem quer que mulher lhe venha dar a mão. Reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!” Ok, meio grande para escrever na bandeira. Mas que merecia, merecia.

KILL YOUR TELEVISION Ned’s Atomic Dustbin

Você já acordou, já reconheceu que bebeu demais, já deixou a água entrar pelos poros e a luz do dia pela janela. Muito bem. Mas ficar em casa vendo televisão não vai te levar a lugar nenhum. Desliga essa máquina de fazer maluco que você tem em casa.

WAKE UP AND LIVE Bob Marley

Você levantou e jogou uma água na cara. Entrou no chuveiro. Deixa a ressaca em casa, faz um sanduíche. Bebe um suco de laranja, ou um açaí, ou uma água de coco. Faz alguma coisa, vai dar uma corrida na praia. Acorda! Vai viver! Bob Marley. Escuta o cara.

I AM THE RESURRECTION Stone Roses

E as coisas começam a entrar nos eixos. Parecia impossível, mas aquele zumbi de uma hora atrás está na rua, vencendo o mundo, vencendo as barreiras impostas pela química de seu próprio corpo e encarando a vida de frente. Quase um Jesus Cristo.

I’M FREE Soup Dragons

Quem foi jovem nos anos noventa sabe do que eu estou falando. Os caras do Soup Dragons ficaram marcados na memória de muita gente. Um raggamuffin’ incidental sobre uma batida totalmente Manchester recriando uma velha canção dos Stones. Sem contar o corinho meio Gospel à la Primal Scream no refrão. Encaixe perfeito. Liberdade total. É você que manda. Todos te querem, todos querem amar você. Ressaca? Que ressaca?  O lance é celebrar a vida, que a gente só vive uma vez.

A VOLTA DO BOÊMIO Nelson Gonçalves

O bom filho à casa torna. E não é uma ressaca que vai derrubar um guerreiro. A noite está lá te esperando. Os amigos, a música, as mulheres, os encontros e desencontros, as mesas de bar, a vida! É talvez com alguma melancolia tímida que você volta, mas deixa só a coisa esquentar. E vale a máxima-clichê: a melhor maneira de curar uma ressaca é beber de novo. Nada melhor que uma frase clichê para resumir uma verdade absoluta.

ALABAMA SONG The Doors

O bar ideal é aquele mais à mão. E para comemorar a imortalidade de nossas almas, nada melhor que um “Whisky bar”. “Oh, don’t ask why, oh, don’t ask why!”

EU BEBO SIM Velhas Virgens

Digam o que quiserem, mas o fato é que encher a cara é muito bom. Se não fosse, ninguém enchia. Vai. Enche a cara.
Ai, ai, ai… tudo de novo. O ser humano não aprende. Mas como é bom não aprender! Cheers!

Preguiça

preguica1Uma pausa, um descanso, faz bem para todo mundo, mas quando é que aquela morgação deixa de ser ócio criativo e torna-se um dos sete pecados capitais, ou mesmo um preocupante sinal de distúrbio depressivo? Se você tem a sensação de que a vida está te deixando para trás, acelere o Macunaíma que existe em você ouvindo essas 15 canções (tá bom, 12, ô preguiçoso….)

UNDIÚ João Gilberto

Tá bom, não é porque João Gilberto é baiano que ele vai entrar numa lista sobre preguiça. E tampouco é porque em quase 60 anos de carreira ele compôs só umas cinco músicas, a maioria sem letra. É porque “Undiú” é uma musiquinha com jeito de espreguiçada, daquela que nos grampeia na cama e nos debate entre o sonho e a vigília. Aproveite enquanto pode, porque o despertador já está no segundo “snooze”.

DANS MON ÎLE Henri Salvador

Que delícia minha ilha, a gente se doura ao sol que nos acaricia e espreguiça, sem sonhar com o amanhã. Sob os coqueiros, só eu e minha Dudu brincando de Adão e Eva. Sonhar é bom, mas na vida real ninguém vive de coco e cafuné.

THE LAZIEST GAL IN TOWN Nina Simone

Eu até que podia, eu mesmo devia, mas não dá, sou a garota mais vagal da cidade. Eu nem sei como é que vou trazer o tutu para casa, eu até tento, mas eu sou a garota mais preguiçosa da cidade. E nesse ritmo não vou viver para ser a velha mais preguiçosa da cidade.
http://homepage.mac.com/casadapalavra/.cv/casadapalavra/Sites/.Public/VimMusDown/09%20The%20Laziest%20Gal%20in%20Town.mp3-zip.zip

SYMPATIQUE Pink Martini

Eu não quero mais trabalhar, nem almoçar, eu só quero ficar fumando e esquecendo da vida. Tudo bem que ser desempregado na França é uma das melhores profissões, mas convenhamos, um pouco de vergonha na cada é de bom tom.

AI D’EU SAUDADE Xangai

Se a gente pensar em tudo o que pode dar errado, aí é que não faz nada mesmo, e fica só na saudade. É melhor quebrar a cara que morrer de inanição sedentária. Lembre-se da lição popular: o homem que não trabalha não pode comer gostoso.

THE IMPORTANCE OF BEING IDLE Oasis

Os amigos a namorada, estão todos dando o toque: você é preguiçoso demais. Mas você não liga, desde que tenha uma cama sob um céu estrelado, já que simplesmente, seu coração não está ali. Coloque logo seu coração em algum lugar, seu apático, porque o que não se usa, definha, e logo ele vai parar.

ACORDA AMOR Maria de Medeiros

Simplesmente não dá para ficar enrolando, o bicho está pegando (ou vai estar já, já). Portanto, acorda para a vida, amor. Não esqueça a escova, o sabonete, o violão.

SOCORRO Arnaldo Antunes

Indolência, procrastinação, má-vontade, bode, morgação e vontade de assistir a Sessão da Tarde de pijama. Isso tudo pode ser sinal de que para você nada mais faz sentido e, portanto, nada mais é necessário. Ouça um segredinho: nada mesmo faz sentido, amigo, mas não é por isso que você vai ficar suando no sofá, até para ser niilista é preciso suar a camisa.

GET UP, STAND UP Sawa

Uma das desvantagens de ser preguiçoso é que se você não faz, vão fazer por você. E vão dizer o que você tem que fazer, e vão obrigar você a fazer do jeito que eles querem. Então é melhor se levantar e impor seus direitos antes que seja tarde.

EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA Sergio Sampaio

Você pode até dizer para si mesmo que está “tirando um sabático”, mas o pessoal está mesmo comentando é que você arregou, desistiu. Fica quietinho, não aparece, não se manifesta, dá no mesmo que ter morrido. Se levanta, homem, bota o seu bloco na rua, faz o seu barulho, mostra está vivo, ou pelo menos finge!

DIVINO, MARAVILHOSO Gal Costa

Atenção! Não fique aí pensando na morte da bezerra, o mundo está cheio de estímulos para seus sentidos. Tudo é perigoso mesmo, mas garanto que tudo é maravilhoso, basta experimentar. Fique atento e forte, a vida pode te convocar a qualquer momento!

SOY GITANO Camarón de la Isla

Se você ouvi o receituário acima e permanece incólume gigante adormecido, aumente o volume e tente lidar com a energia berrante desta canção. Se você ainda não se mexeu, peça para alguém ver sua pulsação, há uma boa chance de que você esteja morto.

Solidão


SolidãoJean-Paul Sartre, entre outros filósofos da corrente existencialista, pregava que a solidão é a condição natural do homem: nascemos sozinhos (até mesmo os gêmeos) e morremos sozinhos (incluídos os chacinados). Bom, se o estrábico francês estava certo, porque é que ele mesmo vivia sempre cercado de belas estudantes dadivosas? O homem evita a solidão desde quando está no berço até quando chega a hora de jogar biriba na pracinha. Somos animais sociais e temos que cumprir a sina de todos os seres vivos: nascer, crescer, reproduzir e morrer e essa quarta tarefa não podemos realizar sozinhos.
Todo mundo passa por uma solidãozinha, e até gosta (se você morar com sua sogra, cunhada, mulher e três filhas você sabe do que estou falando). O problema de que tratamos aqui é a solidão prolongada, que descamba em sentimento de isolamento, de deslocamento do meio social. Solidão constante pode projetar-nos em um ciclo vicioso, ao minar nossa auto-estima, o que leva a encerrarmo-nos em nós mesmos e cortejar a depressão, o hikikomori, a autofobia.
Agora me dê a mão, vamos sair por aí em 10 canções. Como sempre começamos com um retrato agudo da situação.

ELEANOR RIGBY Ray Charles

Ah, vê só como são as pessoas solitárias. Eleanor Rigby, por exemplo cuida da igreja, varre o arroz jogado no casamento dos outros e tem um sorriso falso guardado para ninguém. No dia de sua morte, dela só resta um pouco de terra na mão do coveiro. E quando chegar o dia da sua morte o que vai restar? (Calma, continue lendo…)
(Lennon & McCartney) in A portrait of Ray, 1968

YOUR NEW TWIN-SIZED BED Death cab for cutie

Você parece tão derrotado, assim, deitado em sua cama de casal, só você e seu travesseiro. Você com esse desejo doentio de autodestruição, parece que quer dizer “adeus, mundo”. Sai dessa!
(Gibbard & Harmer) in Narrow stairs, 2008

UNDER THE BRIDGE Red Hot Chili Peppers

Não vale nada ter dez milhões de vizinhos se por vezes parece que a cidade é sua única amiga. É difícil reconhecer que você está sozinho quando você tem uma legião de amigos vazios, mas é necessário enfrentar a danada da solidão. Anthony Kieldis só reconheceu e encarou a própria três anos depois de deixar de consumir heroína com os pretensos amigos lá “embaixo da ponte do centro”.

SENTADO À BEIRA DO CAMINHO Rosa Passos

Te largaram, e você já não sabe porque seguir nessa estrada que leva do nada ao nada. Você vai sentar à beira do caminho?, dormir na sarjeta e ser lambido pelo cão da autopiedade na manhã seguinte? Nada disso, você “não é um pobre resto de esperança à beira da estrada”, você não pode “ficar esperando a vida inteira.” Ei, cara, você existe. EXISTE. E pode não ser o melhor, mas é o único que você tem. Lembre-se disso.

REFÉM DA SOLIDÃO Baden Powell

O pior da solidão é que a gente pode se acostumar com ela. Viramos reféns e, como na síndrome de Estocolmo, acabamos gostando dessa vidinha mais ou menos, acorda-trabalha-come-dorme. Cuidado, cidadão, para não cair nesse estágio pantanoso e virar aprendiz de morrer, vida que não é vivida é morte enganada.

HEY YOU Pink Floyd

Ei, você! É, você mesmo! Você que está ficando cada vez mais velho e cada vez mais sozinho. Me ajude a te ajudar! Se mexa, pára de criar minhocas na cabeça, pára de subir o muro em torno de você mesmo. Não me diga que não há esperança. Juntos nos impomos, separados caímos. Por trás desse andamento soturno não é que essa canção do Pink Floyd tem uma letra alto-astral?

COMO DIZIA O POETA Vinícius de Moraes

Vinícius, que vivia casado (foram nove esposas) sabia muito bem o que é se sentir sozinho e nessa música dá um conselho claro: “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. Ou, como dizia seu grande parceiro, “é impossível ser feliz sozinho”. Portanto, meu irmão, “deixa cair”, porque “a vida só se dá pra quem se deu”.

SOLIDÃO QUE NADA Cazuza

Se você ainda não se convenceu, aumente o volume e cole seu ouvido no alto-falante, na parte que Cazuza resolve o problema: esqueça a solidão e lembre-se que VIVER É BOM. Sua estrada vai ter muitas curvas e em muitas delas você vai derrapar, mas a viagem vale a pena e a passagem no final das contas é barata.

Dor de cotovelo

capadordecotovelo

Quem já passou por essa vida e não se rasgou por uma paixão mal-acabada não viveu, como disse o poetinha. Conhecida pitorescamente no Brasil como “Dor de cotovelo”, ela é mais universalmente referida como “coração partido” e de fato é uma doença catalogada. E mortal: a Síndrome do Coração Partido (também pode chamá-la de Cardiomiopatia Takotsubo, se conseguir decorar) é o enfraquecimento súbito do miocárdio que ocorre quando o paciente perde uma pessoa amada. Preparamos abaixo, para fins terapêuticos, uma receita que percorre os vários estágios que se sucedem a quem tomou o popular “pé na bunda” (não, “podo-traumatismo glúteo” ainda não é uma doença catalogada). Para isso vamos seguir (anarquicamente) o modelo de Kübler-Ross dos “5 estágios do luto”.

Negociação

NE ME QUITTE PAS
Jacques Brel

Ameaçado de perder o objeto amado, o personagem desta canção transcende o limiar do ridículo: e diz que se a mulher não largá-lo ele trará chuvas de pérola do deserto. Talvez você tenha passado por esse estágio “meu mundo caiu” antes da definitiva separação e ouvir essa bela canção de Jacques Brel ajuda a encarar o ridículo porque você passou e a entender o processo que você vai atravessar, ao longo das próximas músicas:

Raiva
ATRÁS DA PORTA Lenine

Nessa canção, a ruptura já foi consumada, não adianta, não há como voltar atrás, mas você não quer nem saber, você faz coisas como “se agarrar nos seus cabelos, no seu pelo, seu pijama, nos seus pés aos pés da cama”. Uma catarse (o popular “piti”) como essa tem seu valor terapêutico. Vale quebrar aquele bibelô ridículo que ele te deu, vale hackear a página dele no orkut. Mas lembre-se: agressão com objetos perfuro-cortantes dá cadeia.

Depressão
NA PRIMEIRA MANHÃ Maria Bethania

Esse é um retrato dos primeiros dias de solidão pós-ruptura e o sujeito da canção sofre sintomas muito próximos aos da crise de abstinência. Se não vejamos: “Na segunda manhã que te perdi era tarde demais pra ser sozinho. Pelo canto da boca um sussurro, fiz um canto doente, absurdo. Um lamento noturno dos viúvos, como um gato gemendo no porão”. Tá bom, você sofreu na primeira manhã, se desesperou na segunda, mas virá a terceira, a quarta, a quinta e na sexta é dia de ir à caça.

Denegação
THE WINNER TAKES IT ALL Abba

Vocês ainda vão esbarrar, e ele virá apertar sua mão, só para fingir que são amigos. E aí cuidado para não despejar nele toda aquela raiva que decanta devagarinho em seu coração, se não acabará como essa sueca, que começa leve em “não quero falar sobre essas coisas, elas estão me ferindo, mas já passou” para depois exigir: “por acaso ela te beija como eu beijava?” até se resignar com “Tudo bem, eu sei que perdi, desculpa eu aparecer assim tão para baixo, mas sabe como é, o vencedor tudo pode, o perdedor se…”. Já que você botou pra fora, talvez seja hora de pendurar a autocomiseração e esquentar no microondas o prato frio da vingança. O que nos leva à próxima fase:

Raiva (amar odiar a quem odeia-se amar)
SMILE Lilly Allen

O bobão que desprezou a Lilly Allen para comer a garota na esquina agora liga para ela, tristinho. O que ela faz? “Quando vejo você chorar eu sorrio. Fico mal no começo mas depois vou para frente e sorrio”. Comece a rir do seu passado! Até sorriso amarelo está valendo.

Aceitação (ou quase)
ME DEIXA EM PAZ Alaíde Costa e Milton Nascimento

Se você ainda tiver o que dizer para o seu ex, que seja algo sucinto e definitivo como disse Monsueto: “Se você não me queria não devia me procurar”. “Você arruinou a minha vida”, e, agora vê se “me deixa em paz”. Precisa dizer mais? A fila anda… e, como diz outra canção do Monsueto, “pra que rimar amor e dor”?

Raiva quase aceitação
YO VIVIRÉ (I will survive) Celia Cruz

Não é que o/a babaca volta? E vai entrando pela casa, querendo cafuné e todinho? Qual é? Saiba que “você me desconjuntou toda, e eu fiquei me remoendo, pensando onde é que tinha errado.” “Só que “eu não sou mais aquela pessoinha grudada em você. Eu tenho meu amor para dar, tenho minha vida para viver.” Que revigorante é poder dizer ao ex: “vá se embora que você não é mais bem-vindo. Você achou que eu ia me estabacar e quebrou a cara: eu vou sobreviver!”

Aceitação (e um certo deboche)
OLHO NOS OLHOS Rosa Passos

Se Chico pintou o retrato da coitada largada em “Atrás da porta”, também fez o da poderosa que dá a volta por cima, desafia o ex (“Quero ver como suporta me ver tão feliz”) e ainda joga na cara: muitos “homens me amaram, bem mais e melhor que você”. Quando você chegar nesse estágio estará quase perfeitamente curado(a) de sua dor de cotovelo. Só poucos, no entanto, alcançarão a iluminação zen da música final da lista:

Redenção (um estágio além do luto)
TIVE SIM Cartola

Livre-se da dor do amor perdido mas retenha o que importa: as boas lembranças. Cartola diz para a nova paixão que teve, sim, outro grande amor antes dela, mas e daí? Daquela vez, ele “vivia tão contente como contente ao seu lado estou”. É muito importante reconhecer que os relacionamentos que terminaram com dor também foram responsáveis por muita felicidade. Vamos deixar a peneira do tempo reter só as partes boas. Quanto às ruins, “vou calar, pois não pretendo amor te magoar.”

Afasia


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“Quero falar mas não posso. Quero berrar pelos quatro cantos em maiúsculas garrafais mas da minha garganta só saem sussurros sibilantes. Quero berrar mas não tem quem ouça. O que eu faço doutor?”
Afasia
é a perda da capacidade de emitir a fala. Pode ser decorrência de uma pancada no lobo parietal ou, no caso aqui estudado, resultado daquele aperto na garganta que você sente quando não consegue “colocar para fora aquela mágoa”.

(com Selma Carvalho)

ME DEIXE MUDO (Walter Franco)

Walter Franco, no auge da Ditadura, melhor que ninguém interpretou a agonia de quem quer falar e não pode, e a própria gravação deixa isso patente: os 30 primeiros segundos dão a impressão de que o cabo do headphone se soltou. Nada disso, é Walter Franco lutando para emitir o primeiro fonema. As sílabas vêm esparsas, suadas, à fórceps. Pouco a pouco vêm ganhando cadência, o ouvinte começa a compreender e, como se a esperança vencesse o medo, a mudez transborda na mais clara eloqüência. “Não diga NADA. Saiba de TU-DO. Fique caLA-DA. Me deixe MU-DO!”.

(com Selma Carvalho)

UM “OH” E UM “AH” (Tomzé)

Tomzé nos diz em menos de um minuto exatamente o que não pode ser dito, e, como um Kierkegaard do agreste, sofistica a onomatopéia em frases prenhas de significados como “Pacatimbum ê ê, paracatu ó”. Voltando a Kierkegaard, pense que “as pessoas exigem liberdade para falar como compensação pela liberdade de pensamento que elas têm e que raramente usam”. Em outras palavras quando tiver o que dizer mas não quiser falar, “Paraca tu Óoooo”.

(com Selma Carvalho)

CHANGING OPINIONS (Paul Simon e Phillip Glass) e
LE BRUIT DU FRIGO (Mano Negra)

Para poder falar precisa-se saber ouvir. Os personagens dessas canções chegaram ao nível mais baixo da comunicação humana: a conversa com a geladeira. Enquanto Manu Chao é assombrado pelo refrigerador, Paul Simon consegue entrar na mesma vibe de seu eletrodoméstico preferido e daí tirar prazer (e gelo). Se não, ouçamos:
Monsieur Chao: “Quando não resta nada mais, que ela partiu, não há vizinhos nem mesmo cachorros, só o barulho, que parece um martelo, o ruído da geladeira. Eu tomo um copo para esquecer, e meto a cabeça sob o travesseiro para evitar de escutar o choro desse refrigerador”.
Mister Simon: “Talvez seja o zumbido da geladeira resfriando uma grande noite, talvez seja o zumbido da voz de nossos pais há muito tempo, sob uma luz suave… Talvez seja o mantra das paredes e fiações respirando pesado o ar macio”.

COMMON UNCOMUNICABILITY (Os Mulheres Negras)

Os mulheres negras eram dois homens brancos que criaram essa pequena jóia de afasia em casal. Sobre um ser humano que observa outro por muito, muito tempo. E esse outro ser humano o observa também por muito muito tempo. Mas ninguém se fala. E a vida segue tão solitária… Pois é…

(com Selma Carvalho)

GUITARRA Y VOZ (Jorge Drexler)

Imagine um cantor que por circunstâncias políticas ou fisiológicas foi forçado a ficar calado, amordaçado. E que finalmente deixam-no falar. Pop!. No minuto que o reprimido cantor voltar a cantar, isso é provavelmente o que jorrará de sua garganta. Guitarra y voz é um alucinante tsunami de conceitos e idéias entrelaçáveis, que vão desde “fórmulas para descrever a espiral de um caracol” a “cachorros nas alfândegas viciados em drogas de design”. Palavras de todos os sabores se acotovelam em borbotão, de “zen” a “cláusulas”. É uma celebração da capacidade de faar. É o extremo oposto da afasia, aproxima-se da glossalalia uma condição em que o falante fala ininterruptamente e o sentido do que fala só é compreendido supostamente por deus. E para que tantas palavras? Há tantas coisas no mundo, mas para Drexler ou para nós, “só especifico (preciso de) duas: meu violão e minha voz (você)”. Siga o exemplo do uruguaio: fale, berre ou cante tudo o que vier à mente, sem inibições (quer dizer, escolha pelo menos um lugar discreto para fazer isso). Coloque tudo para fora, esvazie a cabeça de palavras e conceitos que a entopem e conclua, com Drexler, que há tantas coisas no mundo, mas só sua voz é preciso(a).