Afasia


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“Quero falar mas não posso. Quero berrar pelos quatro cantos em maiúsculas garrafais mas da minha garganta só saem sussurros sibilantes. Quero berrar mas não tem quem ouça. O que eu faço doutor?”
Afasia
é a perda da capacidade de emitir a fala. Pode ser decorrência de uma pancada no lobo parietal ou, no caso aqui estudado, resultado daquele aperto na garganta que você sente quando não consegue “colocar para fora aquela mágoa”.

(com Selma Carvalho)

ME DEIXE MUDO (Walter Franco)

Walter Franco, no auge da Ditadura, melhor que ninguém interpretou a agonia de quem quer falar e não pode, e a própria gravação deixa isso patente: os 30 primeiros segundos dão a impressão de que o cabo do headphone se soltou. Nada disso, é Walter Franco lutando para emitir o primeiro fonema. As sílabas vêm esparsas, suadas, à fórceps. Pouco a pouco vêm ganhando cadência, o ouvinte começa a compreender e, como se a esperança vencesse o medo, a mudez transborda na mais clara eloqüência. “Não diga NADA. Saiba de TU-DO. Fique caLA-DA. Me deixe MU-DO!”.

(com Selma Carvalho)

UM “OH” E UM “AH” (Tomzé)

Tomzé nos diz em menos de um minuto exatamente o que não pode ser dito, e, como um Kierkegaard do agreste, sofistica a onomatopéia em frases prenhas de significados como “Pacatimbum ê ê, paracatu ó”. Voltando a Kierkegaard, pense que “as pessoas exigem liberdade para falar como compensação pela liberdade de pensamento que elas têm e que raramente usam”. Em outras palavras quando tiver o que dizer mas não quiser falar, “Paraca tu Óoooo”.

(com Selma Carvalho)

CHANGING OPINIONS (Paul Simon e Phillip Glass) e
LE BRUIT DU FRIGO (Mano Negra)

Para poder falar precisa-se saber ouvir. Os personagens dessas canções chegaram ao nível mais baixo da comunicação humana: a conversa com a geladeira. Enquanto Manu Chao é assombrado pelo refrigerador, Paul Simon consegue entrar na mesma vibe de seu eletrodoméstico preferido e daí tirar prazer (e gelo). Se não, ouçamos:
Monsieur Chao: “Quando não resta nada mais, que ela partiu, não há vizinhos nem mesmo cachorros, só o barulho, que parece um martelo, o ruído da geladeira. Eu tomo um copo para esquecer, e meto a cabeça sob o travesseiro para evitar de escutar o choro desse refrigerador”.
Mister Simon: “Talvez seja o zumbido da geladeira resfriando uma grande noite, talvez seja o zumbido da voz de nossos pais há muito tempo, sob uma luz suave… Talvez seja o mantra das paredes e fiações respirando pesado o ar macio”.

COMMON UNCOMUNICABILITY (Os Mulheres Negras)

Os mulheres negras eram dois homens brancos que criaram essa pequena jóia de afasia em casal. Sobre um ser humano que observa outro por muito, muito tempo. E esse outro ser humano o observa também por muito muito tempo. Mas ninguém se fala. E a vida segue tão solitária… Pois é…

(com Selma Carvalho)

GUITARRA Y VOZ (Jorge Drexler)

Imagine um cantor que por circunstâncias políticas ou fisiológicas foi forçado a ficar calado, amordaçado. E que finalmente deixam-no falar. Pop!. No minuto que o reprimido cantor voltar a cantar, isso é provavelmente o que jorrará de sua garganta. Guitarra y voz é um alucinante tsunami de conceitos e idéias entrelaçáveis, que vão desde “fórmulas para descrever a espiral de um caracol” a “cachorros nas alfândegas viciados em drogas de design”. Palavras de todos os sabores se acotovelam em borbotão, de “zen” a “cláusulas”. É uma celebração da capacidade de faar. É o extremo oposto da afasia, aproxima-se da glossalalia uma condição em que o falante fala ininterruptamente e o sentido do que fala só é compreendido supostamente por deus. E para que tantas palavras? Há tantas coisas no mundo, mas para Drexler ou para nós, “só especifico (preciso de) duas: meu violão e minha voz (você)”. Siga o exemplo do uruguaio: fale, berre ou cante tudo o que vier à mente, sem inibições (quer dizer, escolha pelo menos um lugar discreto para fazer isso). Coloque tudo para fora, esvazie a cabeça de palavras e conceitos que a entopem e conclua, com Drexler, que há tantas coisas no mundo, mas só sua voz é preciso(a).

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