Dor de cotovelo

capadordecotovelo

Quem já passou por essa vida e não se rasgou por uma paixão mal-acabada não viveu, como disse o poetinha. Conhecida pitorescamente no Brasil como “Dor de cotovelo”, ela é mais universalmente referida como “coração partido” e de fato é uma doença catalogada. E mortal: a Síndrome do Coração Partido (também pode chamá-la de Cardiomiopatia Takotsubo, se conseguir decorar) é o enfraquecimento súbito do miocárdio que ocorre quando o paciente perde uma pessoa amada. Preparamos abaixo, para fins terapêuticos, uma receita que percorre os vários estágios que se sucedem a quem tomou o popular “pé na bunda” (não, “podo-traumatismo glúteo” ainda não é uma doença catalogada). Para isso vamos seguir (anarquicamente) o modelo de Kübler-Ross dos “5 estágios do luto”.

Negociação

NE ME QUITTE PAS
Jacques Brel

Ameaçado de perder o objeto amado, o personagem desta canção transcende o limiar do ridículo: e diz que se a mulher não largá-lo ele trará chuvas de pérola do deserto. Talvez você tenha passado por esse estágio “meu mundo caiu” antes da definitiva separação e ouvir essa bela canção de Jacques Brel ajuda a encarar o ridículo porque você passou e a entender o processo que você vai atravessar, ao longo das próximas músicas:

Raiva
ATRÁS DA PORTA Lenine

Nessa canção, a ruptura já foi consumada, não adianta, não há como voltar atrás, mas você não quer nem saber, você faz coisas como “se agarrar nos seus cabelos, no seu pelo, seu pijama, nos seus pés aos pés da cama”. Uma catarse (o popular “piti”) como essa tem seu valor terapêutico. Vale quebrar aquele bibelô ridículo que ele te deu, vale hackear a página dele no orkut. Mas lembre-se: agressão com objetos perfuro-cortantes dá cadeia.

Depressão
NA PRIMEIRA MANHÃ Maria Bethania

Esse é um retrato dos primeiros dias de solidão pós-ruptura e o sujeito da canção sofre sintomas muito próximos aos da crise de abstinência. Se não vejamos: “Na segunda manhã que te perdi era tarde demais pra ser sozinho. Pelo canto da boca um sussurro, fiz um canto doente, absurdo. Um lamento noturno dos viúvos, como um gato gemendo no porão”. Tá bom, você sofreu na primeira manhã, se desesperou na segunda, mas virá a terceira, a quarta, a quinta e na sexta é dia de ir à caça.

Denegação
THE WINNER TAKES IT ALL Abba

Vocês ainda vão esbarrar, e ele virá apertar sua mão, só para fingir que são amigos. E aí cuidado para não despejar nele toda aquela raiva que decanta devagarinho em seu coração, se não acabará como essa sueca, que começa leve em “não quero falar sobre essas coisas, elas estão me ferindo, mas já passou” para depois exigir: “por acaso ela te beija como eu beijava?” até se resignar com “Tudo bem, eu sei que perdi, desculpa eu aparecer assim tão para baixo, mas sabe como é, o vencedor tudo pode, o perdedor se…”. Já que você botou pra fora, talvez seja hora de pendurar a autocomiseração e esquentar no microondas o prato frio da vingança. O que nos leva à próxima fase:

Raiva (amar odiar a quem odeia-se amar)
SMILE Lilly Allen

O bobão que desprezou a Lilly Allen para comer a garota na esquina agora liga para ela, tristinho. O que ela faz? “Quando vejo você chorar eu sorrio. Fico mal no começo mas depois vou para frente e sorrio”. Comece a rir do seu passado! Até sorriso amarelo está valendo.

Aceitação (ou quase)
ME DEIXA EM PAZ Alaíde Costa e Milton Nascimento

Se você ainda tiver o que dizer para o seu ex, que seja algo sucinto e definitivo como disse Monsueto: “Se você não me queria não devia me procurar”. “Você arruinou a minha vida”, e, agora vê se “me deixa em paz”. Precisa dizer mais? A fila anda… e, como diz outra canção do Monsueto, “pra que rimar amor e dor”?

Raiva quase aceitação
YO VIVIRÉ (I will survive) Celia Cruz

Não é que o/a babaca volta? E vai entrando pela casa, querendo cafuné e todinho? Qual é? Saiba que “você me desconjuntou toda, e eu fiquei me remoendo, pensando onde é que tinha errado.” “Só que “eu não sou mais aquela pessoinha grudada em você. Eu tenho meu amor para dar, tenho minha vida para viver.” Que revigorante é poder dizer ao ex: “vá se embora que você não é mais bem-vindo. Você achou que eu ia me estabacar e quebrou a cara: eu vou sobreviver!”

Aceitação (e um certo deboche)
OLHO NOS OLHOS Rosa Passos

Se Chico pintou o retrato da coitada largada em “Atrás da porta”, também fez o da poderosa que dá a volta por cima, desafia o ex (“Quero ver como suporta me ver tão feliz”) e ainda joga na cara: muitos “homens me amaram, bem mais e melhor que você”. Quando você chegar nesse estágio estará quase perfeitamente curado(a) de sua dor de cotovelo. Só poucos, no entanto, alcançarão a iluminação zen da música final da lista:

Redenção (um estágio além do luto)
TIVE SIM Cartola

Livre-se da dor do amor perdido mas retenha o que importa: as boas lembranças. Cartola diz para a nova paixão que teve, sim, outro grande amor antes dela, mas e daí? Daquela vez, ele “vivia tão contente como contente ao seu lado estou”. É muito importante reconhecer que os relacionamentos que terminaram com dor também foram responsáveis por muita felicidade. Vamos deixar a peneira do tempo reter só as partes boas. Quanto às ruins, “vou calar, pois não pretendo amor te magoar.”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s